O olhar e o pensamento alcançam os campos e a charneca. Também navegam à vista sem costear. «Ó claro éter e velocíssimos ventos, ó nascentes dos rios e riso inúmero das ondas do mar...», Ésquilo
Prato com rifão da Estatuária. Os motivos decorativos e a policromia são características da “louça ratinha” fabricada em Coimbra. Contém as mesmas estilizações da faiança utilitária que os trabalhadores migrantes das Beiras, alcunhados de "ratinhos", levavam consigo para o Alentejo, num êxodo rural que remonta ao século XVI. A extinção dos centros oleiros conimbricenses (Brioso, Vandelli, séc. XIX), mais recentes e recenseados, obrigou alguns operários a deslocarem-se para Alcobaça, fundando aí novas fábricas e introduzindo a maioria destas decorações.
Revendo a minha cerâmica: painel de azulejos, 2000, vidro velho, azulejo 15x15 cm, conjunto de motivos da região da Tocha, exposto em estabelecimento hoteleiro. (Fotografia de Catarina Venâncio, jornal "Boa Nova", Cantanhede.)
O diálogo da arquitectura tradicional portuguesa passou pelo Hospital Rovisco Pais. As arcadas, colunas e a elevação em torre com o telhado pontiagudo do Conventinho são elementos que aparecem em obras emblemáticas do mestre Raul Lino.
O arquitecto Carlos Ramos desenhou para os edifícios da Fonte-Quente chaminés medievais ou mouriscas (idênticas, por exemplo, às do Palácio da Vila de Sintra). Por sua vez, é reconhecível que a traça final do Rovisco Pais influenciou as recentes obras de raiz da Fundação Bissaya-Barreto na Gala (Figueira da Foz).
Um parêntese para referir que Raul Lino, o arquitecto de moradias apalaçadas, dono de casa familiar ampla e moderna, projectou entretanto para si próprio uma «casita de férias» nas Azenhas do Mar (Cabo da Roca), de «planta muito resumida e interior de máxima rusticidade». (in “Casas Portuguesas-Apontamentos…”, 1933; fotografias da exposição itinerante "Raul Lino 1879-1974".) O modelo rústico é notavelmente saloio e de além-Tejo.
O revestimento azulejar do patamar dos núcleos familiares e do Preventório são de figura-avulsa, em azul cobalto e colorido; o fabrico talvez seja de Coimbra e Aveiro.
Confesso, não podia ficar indiferente às facetas engraçadas do bichano que me visita amiúde quando estou no computador. Assim, ao jeito de outros registos sobre o encanto dos felinos, publico agora uma foto do "Rudolfo". Já está.
Assisti há poucos meses à estreia de “Sobre o Lado Esquerdo” de M. Gil no auditório da Biblioteca Municipal de Cantanhede. Este filme, cujo título de livro poético de Oliveira não se entende porque vem aqui, colige os cenários naturais da Gândara na novelística do escritor das Febres. É obra de apuro estético, com a rubicunda representação do poeta Manuel de Gusmão.
Comparticipado financeiramente pela Câmara Municipal de Cantanhede, passada a estreia o filme foi apresentado na RTP2 e pouco depois já se vendia em vídeo nos escaparates. Agora deve repousar em algum dispensário votado ao esquecimento.
O excerto do documentário ilustra a declamação do poema “Xácara das Bruxas Dançando” - popularizado na música dos “Trovante” -, com uma pretensa deambulação nocturna das feiticeiras na perspectiva maligna que o escritor cola à ruralidade.
Os figurantes são elementos do Grupo Etnográfico Danças e Cantares do Zambujal (Cadima-Cantanhede), associação para a qual tive o prazer de colaborar diversas vezes por alturas do seu Festival de Folclore e também para as Marchas do São João.
Quando o Governo visitou pela primeira vez a Quinta da Fonte-Quente, na Tocha, encontrou em ruínas um único edifício, o chamado Conventinho. A Quinta abandonada pertencia ao capitalista alentejano José Rovisco Pais, que depois a negociou de forma benevolente com o Estado para a instalação da leprosaria, inaugurada em 1947.
A maior parte do que é hoje a Beira Litoral pertencia ao Mosteiro Santa Cruz de Coimbra. Os frades crúzios recolhiam-se a esta verdejante Quinta - oásis no deserto das areias -, durante a época estival. A passagem destes terrenos para os particulares deu-se no século XIX, com a extinção das ordens religiosas.
O nome Fonte-Quente aparece registado na doação de El-Rei D. Afonso Henriques a Santa Cruz e deve-se a uma nascente de água cálida. Curiosamente, as nascentes de água quente (mais algumas a Norte, nas Gafanhas) eram indicadas no antanho para as maleitas da “morfeia” (o arcaico nome popular da lepra) e o destino assim confirmou na área um hospital para hansenianos.
A população tochense mantinha uma ligação afectiva com a Quinta. Deslocava-se para aí em romaria no feriado comemorativo da Nª. Srª. da Tocha. Uma banda de música embarcava em batéis e prolongava o concerto na lagoa.
O arquitecto escolhido para a construção dos núcleos do Hospital, Carlos Ramos, inspirou-se no Conventinho para a traça dos restantes pavilhões. É possível descortinar na generalidade destes edifícios alguns elementos (as arcadas, os telhados, as chaminés...) do estilo que os modernos baptizaram de “casa portuguesa”.